Goiabada

Não é marmelada, é goiabada

O homem em cima do muro

Posted by thaisherrero em 09/09/2013

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Foto de Marco Gomes/ Via Flickr

Havia semanas que a mulher prestava atenção no homem. Olhava seu caminhar e suas roupas em tons escuros e sóbrios, combinadas com a atenção de quem acorda atrasado e sai correndo de casa.

Um dia enquanto atravessava a rua, o viu encostado num muro branco com alguns tijolos expostos. Ele fumava, como de costume. Distraída, não enxergou que chegava a calçada e tropeçou em direção a um portão. A cara ficou tão próxima das grades de ferro que ela pôde sentir o cheiro úmido da ferrugem. Ele, assustado, largou o cigarro e correu para segurá-la. “Está tudo bem?”.

Apesar da vergonha e da dor no calcanhar, sim, estava tudo bem e ela aceitou as mãos que repousaram em sua cintura e a guiaram para um banco numa praça próxima. Parecia que aqueles corpos já haviam se tocado antes.

***

No dia em que o homem beijou a mulher pela primeira vez, ele estava encostado no muro baixo e branco com tijolos expostos. Estava lá porque era cômodo como um apoio deve ser, mas como um beijo não precisa. Era a calçada da casa de um amigo, onde acontecia uma festa. Quando o beijo acabou, ele olhou por cima do muro para ver como estava a festa do outro lado. Estaria melhor lá?

O segundo beijo começou e ela fechou os olhos imaginando que daquele lado do muro, protegidos da festa, estavam protegidos de todo resto do mundo. Estava melhor lá.

E como um grafiteiro que pinta as mais belas cores mesmo sem ser chamado, ela  desenhou no muro a história de amor que desejava viver. Ao sonhar, não percebeu quando as mãos do homem soltaram sua cintura e escalaram a parede.

Ele se sentou no muro para olhar os dois lados com a mesma intensidade: do lado da festa, a leveza da liberdade e a música do improviso. Do outro, a densidade da entrega, que tocava como uma orquestra aguda e intensa.

***

O tempo passou para o casal. E cada dia que o cotidiano jogava fora, mais um tijolo era adicionado no muro da vida. Até ficar tão alto que o homem se deu conta que era hora de decidir se pulava para dentro ou para fora.

Encostada entre muitas pinturas, a mulher tentava entender onde tinha ido parar aquele desenho de um amor tão simples, de cores pastéis e pacíficas como o que havia criado.  Mas havia se apagado de vez.

***

Ela só se deu conta de que havia esquecido completamente o homem quando o viu inesperadamente alguns anos depois. Era uma festa de rua que alguns vizinhos organizaram, como não se vê mais. E lá estava ele, sentado em cima do muro branco de tijolos expostos. Tocava gaita como se quisesse compensar os anos de silêncio que impôs ao espaço inabitado.

Mas já era tarde pois outra festa acontecia. A rua, a cidade, a mulher, o amor: ninguém podia mais esperar por ele. Vendo-se fora de tudo, o homem observou o mundo pelo qual não se decidia.

Ela o reconheceu e continuou dançando descalça uma música que jamais ouvira – sabia improvisar. Sempre soube de que lado estava. Ele tocou mais algumas canções e desceu do muro, mas não se sabe para que lado partiu. Nunca mais foi visto por aqueles amigos.

Há quem diga que ela o empurrou para fora do muro durante a festa, sem que ninguém notasse. Era ao menos o que ela queria ter feito. O certo é que enquanto dançava, ela encostou sozinha num muro, no canto mais afastado da festa. E pintou nele com batom algumas palavras para que jamais se esquecesse de que lado gostava de estar.

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Fwd:

Posted by thaisherrero em 16/05/2013

Foto de  las - initially via Flickr

Foto de las – initially via Flickr

Modernizaram o amor

E agora

Eu amo a tela de um computador.

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Em qualquer padaria paulistana

Posted by thaisherrero em 09/11/2012

Aquela noite de fim de inverno era tão quente que Carolina mudou o caminho do trabalho para casa só para passar numa padaria e tomar  suco de laranja. Ou melhor, limão! Com três pedras de gelo e nenhuma colher de açúcar.

Até então, nunca havia reparado naquele lugar. Típica padaria paulistana em happy hour. Gente no balcão comendo fatias de pizza. Crianças se lambuzando em sorvetes enquanto as mães compravam uma dúzia de pãezinhos – bem moreninhos, como todos os dias – e escolhiam roscas com creme – mas só se for de hoje.  Na calçada alguns universitários bebiam cerveja naqueles copinhos de boteco. Há quem os chame de copo americano.  Mas Carolina duvidava que nos Estados Unidos alguém usasse aquele objeto tão brasileiro. Tão popularmente de padaria brasileira.

Foi na saída, com a boca entre azeda e gelada que ela reparou no homem que a fitava. Quando pagava a comanda no caixa, bem que tinha sentido um olhar que a puxava, mas não quis olhar. Ou não conseguiu, afinal, o cartão de crédito não seria aceito se que ela não gastasse no mínimo dez reais. Carolina se esforçou para escolher alguns chocolates e chicletes. Mas que droga! Teria que sair da dieta!

Quando saiu da padaria, o dono do olhar que a seguia já estava na calçada. Ela teve certeza de que ele iria aborda-la. Talvez comentasse sobre o calor intenso que denunciava o início da primavera. Talvez recomendasse a coxinha com catupiry, um dos atrativos da casa – que já havia até sido premiado por uma revista.

Só que ele não disse nada. Ao contrário, se virou, deu mais um gole em sua cerveja, colocou o copo no chão e acendeu um cigarro ao mesmo tempo em que virava de costas para Carolina e falava com um amigo baixinho. Ou seria ele alto demais?

A resposta a qualquer frase que ele dissesse estava na ponta da língua dela. Mas o silêncio a fez abrir a bolsa e pegar o primeiro chocolate que seus dedos encostassem.  Agarrou três bombons e foi comendo um a um enquanto continuava o percurso de casa, arrependida de ter tirado o gosto azedo e gelado da boca.

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A primeira vez que subi no palco do psicodrama

Posted by thaisherrero em 11/09/2011

O relato do contato inicial com a metodologia que mistura arte e psicologia em atos coletivos para descobrir nossos personagens da vida real

Quando ouvi falar de psicodrama, achei a proposta de unir teatro a uma terapia em grupo para, no fim, promover o entendimento subjetivo de cada indivíduo, sedutora. Na hora, me convidei para algum encontro.

Confesso, no entanto, que assim que minha amiga, Juliana Maldonado, passou a me chamar frequentemente para uma experiência, desisti. Tenho um lado tímido e covarde que teme falar em grupo ou aparecer demais. Já fiz algumas apresentações na escola e até participei do grupo de teatro, no qual quase fui personagem principal de uma peça que acabou não indo para frente. Gostei de todas as experiências. O final de cada uma era gratificante e prazeroso, mas sei que era uma luta pessoal chegar a um palco por menor que fosse. E mesmo com todos os seminários da universidade, nunca aprendi a me sentir confortável com uma porção de olhos focados em mim. Fugi, então, do psicodrama o quanto pude, sem dar muitas satisfações.

Até um convite irrecusável: o encontro psicodramático piloto do projeto AIMIRIM, idealizado pela Juliana junto com Beatriz Petrilli, para escrever um relato. Encarei a tarefa porque, na posição de jornalista, é fácil ser eu mesma. Nasceu, então, esse texto: uma visão leiga que apenas conta uma experiência, sem se prender a aspectos técnicos da ciência psicodramática.

Quando cheguei ao encontro, umas das primeiras frases que disse a Juliana foi:  “Vou ter vergonha disso”. Estava de bloquinho e caneta na mão e meu plano era ser apenas telespectadora. Por algum motivo, me senti confortável assim que entrei na pequena sala onde tudo aconteceria. Talvez tenha sido as almofadas no chão, as pessoas com pés descalços, os amigos por perto ou o violão que tocava um sambinha do Chico. Demorei um pouco para tirar os sapatos, mas o bloquinho e a caneta foram abandonados tão logo percebi que queria participar e não apenas observar, afinal, só se relata com sinceridade uma experiência vivida com mente e coração abertos.

Mergulhei com entusiasmo nas primeiras atividades. Há quanto tempo não tinha a oportunidade de brincar daquele jeito? Senti todas as pessoas receptivas e minha segunda mudança de comportamento foi parar de me sentir “uma” para me sentir “parte” do grupo. Experiências coletivas trazem o sentimento de pertencer a um meio e justamente isso nos traz um sentimento, muito mais verdadeiro, de nós mesmos. Foi respondendo sem muito pensar e sendo guiada por ações dos outros que via minhas frases denunciando a mim mesma quem eu sou.

Tínhamos que completar frases como “O mundo é”, “Um O mundo melhor é” e “O mundo melhor tem” quando alguém passasse a bola (literalmente). E essa bola vinha na minha mão insistentemente. Entrei na berlinda. O mundo, para mim, é grande. Meu mundo melhor tem liberdade de ser quem eu sou, tem mais dias de sol, tem filhos que cuidam dos pais. Meu mundo melhor é mais colorido e tem coincidências.

A brincadeira não tinha fim. Poderíamos passar a noite criando nosso mundo melhor. É um exercício prazeroso doar nossos melhores sentimentos e gostos para todas as pessoas! Criamos um planeta com mais samba, com respeito aos animais, com companheirismo e com mais sombra e água fresca.

A segunda parte do exercício foi mais tensa e emocionante do que eu esperava. Era hora de cada um olhar para si e criar um personagem que nasceria das sensações e emoções que pulsavam em cada um de nós naquele momento.

Eu estava tão eufórica com a construção do mundo melhor que demorei a achar o broto para florescer um personagem. Ele foi ansiedade, foi liberdade, foi arte. Até que descobri: o personagem estava lá o tempo todo, só eu não o via. Era a Dúvida. Ele nasceu, mas como toda boa dose de Dúvida, temia entrar em cena. Os acontecimentos estavam intensos. Alguns participantes retomavam traumas de infância, outros se acomodavam no silêncio, uns criavam personalidades espontâneas para quebrar o clima pesado que se instaurava como num ato que chega ao ápice. Estiveram lá o Medo, Filósofos, Índios e Corações. Todos com muita personalidade e uma boa dose de encenação, como deve ser.

Me senti um pouco impotente, pois a Dúvida não cabia nas cenas. Apesar disso, percebi que enfim, ela estava atuando da forma mais honesta que podia: estando incerta do próximo ato. Enquanto cada pessoa vivia seu personagem com falas e gestos e as técnicas psicodramáticas eram colocadas em prática, descobri que havia instalado uma poltrona de espectadora no palco, onde eu atuava e me percebia.

Sou mesmo indecisa, sempre fui. Sou tanto a ponto de nunca ter conseguido resolver se isso é qualidade ou defeito. É um problema quando me toma tempo e é também uma forma de pensar e avaliar cada atitude e cada situação. Eu poderia ter entrado em cena, mas ter vestido a roupa da Dúvida me permitiu brincar comigo mesma e refletir sobre a vivência à qual eu me entregava silenciosamente.

O psicodrama, afinal, me conquistava. Sendo uma peça com muitos atos, que sem roteiro decorado, passou por comédia, peça infantil, romance e drama. Foi tudo uma grande brincadeira cheia de verdade, onde as cortinas não se fecham ao final. Se abrem para que possamos ver o mundo e nos ver dentro dele.

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Amante

Posted by thaisherrero em 03/09/2011

Fica só entre nós
que você me deixou
e miséria é tanta
que eu abri a porta
pro bairro todo ver

Fica só entre nós
que te deixei visíveis marcas
no pescoço, nas costas
com as unhas e com a boca

Fica só entre nós
que leio o jornal do vizinho
e bebo o cheiro do seu café,
mas o jornal devolvo
saciada de inúteis verdades

Ficava só entre nós,
mas você contou pro mundo
pra sua mulher,
seu amigo e seu chefe
que não me ama mais

Fui sua mulher, sua marca,
sua chefe e sua cama
Mas isso você me pede
pra ficar só entre nós

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A lua que cada um vê

Posted by thaisherrero em 04/07/2011

– Está vendo aquela sombra na lua? É São Jorge, em seu cavalo, lutando contra um dragão.

Lembro de minha avó contar essa história quando eu era criança. Eu ficava no quintal, nos fundos de sua casa, olhando os rastros daquele bravo guerreiro que batalhava eternamente. Eu não imaginava a luta, eu a via. São Jorge, em um cavalo marrom claro, capa vermelha e uma longa espada sempre em punho, se defendendo do fogo que saíam da boca do dragão verde.

Nas noites de minha infância, eu não questionava os motivos daquela incessante guerra lunar. Cresci olhando para cima, à procura de sua luz e sua magia inexplicável. Tinha 18 anos quando percebi que São Jorge não estava mais lá.

– Só quem está apaixonado consegue ver um coelho nas sombras da lua.

Uma amiga me disse enquanto, deitadas no tapete da sala, não precisávamos ir até a sacada e encarar o frio de junho para ver a lua cheia. Ela brilhava exatamente no nosso campo de visão. Estávamos acompanhadas de dois garotos que conhecíamos há algumas semanas. Com a pressa que só os amores adolescentes têm, concordei, transformando um cenário de guerra num coelhinho, estático, como as paixões não devem ser.

Um dia desses, era fim de tarde e ainda horário de expediente, mas abandonei o computador e subi no telhado para ver o eclipse que estava acontecendo. Para decepção das dez pessoas que me acompanhavam, os prédios de São Paulo escondiam a lua. Nem São Jorge, nem coelho, nem nenhum sinal dela.

Quando a noite chegou, a lua apareceu e nos recompensou. De nossas janelas era possível ver o fim do eclipse e sua beleza não-rotineira. A lua vencera a altura dos prédios.

Dias depois, numa cobertura na região da Augusta, eu buscava alguma lua, mas ela não estava por perto. Não sabia se, novamente, ela se ocultava atrás de arranha-céus ou se brincava de esconde-esconde comigo e me olhava pelas costas.

– Já reparou que São Paulo é uma cidade sem linha do horizonte?

Respondi que não. Aqui, há uma beleza que não está debaixo do nariz. Temos que olhar para o alto e encontrar o brilho insistente de poucas estrelas. É preciso encontrar a lua. Fechar os olhos para o resto da cidade e abri-los como se só ela coubesse na visão.

E nessa lua, deixar acontecer o que quisermos. Sejam batalhas infantis e eternas, sejam paixões adolescentes que duram um eclipse ou o reconhecimento de que, em São Paulo, não há beleza no horizonte da terra, e sim, do céu.

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Noite de domingo

Posted by thaisherrero em 09/05/2011


 Debaixo de minha janela paulistana
do alto desse prédio fino
magro
longilíneo
longe de tanto
perto do céu

Poucas janelas acesas
É fim de domingo
Que preguiçoso dia!
preguiçosas pessoas

Nada acontece
Nenhuma luz se acende
nenhum pássaro voa
nenhum carro corre
nenhuma voz grita.

É a cidade estática
Estabilidade da cidade
encontrada numa noite de domingo

Mas é preciso ir além dessa montanha de prédios!
Finos
magros
longilíneos
longe de tanto

De baixo da minha janela,
penso no mundo lá em baixo
Mas nada parece acontecer

É fim de domingo e estou preguiçosa.
Do alto desse prédio,
estou longe de tanto…

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Amor sem lágrimas não é amor

Posted by thaisherrero em 25/04/2011

Para a mulher que não sabia mais quem era, também era difícil saber o que sentir. No momento em que terminava o casamento, não sabia como chorar e questionava se  era insensível, afinal, todo fim é dolorido, até para os corações mais calejados.

Naquela noite úmida de verão, faltavam-lhe lágrimas. Da janela da sala, ela pensava que a lua brilhante merecia estar em outras histórias de amor. A sua já havia acabado. Quando o marido abriu a porta e a encontrou sentada na penumbra do abajur, em meio a malas no chão, entendeu tudo. Sentou-se ao seu lado e chorou. Nenhuma palavra precisou ser dita na despedida daquele casamento que teimava em existir em vão.

Tantos pensamentos vinham à mente dos dois que era impossível transformá-los em palavras sobre o porquê um amor acaba. Ela permanecia quieta há quase uma hora. Conseguia apenas olhar a sala bagunçada, já sem seus retratos. Ele enxugava os olhos. Queria devolver as lágrimas para dentro eles.

E quanto mais o marido chorava, mais ela pensava que era hora de partir. Queria ser menos racional, ser uma mulher que se desespera ao fim de um amor. Que parece sofrer.

– Temos que nos desculpar por não nos amarmos mais. O amor que me restou já não é suficiente para me deixar acordar do seu lado todos os dias.

Ela pensava se seria possível terminar um casamento sem chorar. Se seria possível um amor sem lágrimas. Se era racionalismo ou insensibilidade. Mas sabia que seu amor tinha lágrimas secas, que brotavam e a molhavam por dentro.

Ele se levantou, ascendeu um cigarro e pediu que ela saísse.

– Não há culpados. A gente sabe a hora que tem que partir.

Ela se levantou, fez um chá, pegou chocolates e um álbum de fotos. Passou a noite no escritório olhando retratos de tantos anos de felicidade sincera e chorou. Chorou um choro contido por anos. Comeu o chocolate porque o gosto doce era uma recordação de muitos mimos em forma de bombons. Tomou o chá porque o calor que acometeu seu corpo era uma lembrança do colo que teve um dia.

Chorou por toda a madrugada. Ao acordar com o sol da janela aberta, não sabia a que horas o cansaço e as lágrimas a embalaram num sono profundo e sem culpa. Também não sabia se chorara de tristeza pelo amor perdido ou em agradecimento pelo amor até então vivido.

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Sai em busca de um pouco de cidade e encontrei seu excesso

Posted by thaisherrero em 15/04/2011

Era meu terceiro dia na (não)rotina de desempregada e a segunda tarde que tentava dedicar aos estudos. Um dos maiores problemas de trabalhar e estudar é justamente por o estudo em dia, certo? Depende. No meu caso, tempo livre pode significar tempo desperdiçado e falta de concentração.

Enquanto o relógio corria, as páginas de meu livro ficavam paradas. Eu só tinha olhos para o computador e principalmente para a janela, de onde via prédios e telhados vizinhos. Nenhuma ação. Me sentia entediada, numa rotina que ainda me era estranha. Precisava de atividade, de gente e barulho. Resolvi o problema.

————————–

Saio mais cedo para a aula, mas desvio o caminho. Vou a um sebo e compro uma versão conservada de “Laranja Mecânica”, presente de aniversário para um primo. Desfruto de um agradável bate-papo com o livreiro e professor de história da arte. Fomos de deficiências nas universidades e falta de dinheiro às origens do meu sobrenome e do nome bíblico Caim. Segundo ele, ambos têm o mesmo significado. “Caim” viria do barulho que faz o ferro martelado pelo ferreiro.

Quase meia hora depois, deixo o sebo às pressas, fugindo da chuva que chega e correndo atrás do meu ônibus que passa. Embarcada, olho para o livro em mãos. Nunca havia pensado em ler a obra que deu origem ao filme de mesmo nome e, não fosse meu primo, não o teria naquele momento. Tenho que o ler. Nem sinto passar a uma hora de trânsito no percurso que levaria menos de 30 minutos.

Chego, enfim, à faculdade. Aproveito os minutos de sobra e pego textos para a aula de história da música brasileira, ainda que eu só vá precisar deles dentro de três semanas. Me arrependo da vaidade nerd assim que vejo a chuva-surpresa. Torrencial, de vento forte e trovões. Impossível atravessar o caminho descoberto de dez minutos que me separa da sala de aula.

Com toda a paciência de quem saiu de casa querendo mesmo viver, coloco meu Ipod e me entrego ao ritmo dos Novos Baianos. Como a pêra que tenho na mochila e me disponho a esperar a chuva passar. Não passa. A aula já deve ter começado.

Ando e olho de perto o que havia visto de manhã no jornal: o lixo cobre a escadaria e o banheiro no prédio da FFLCH – protesto de funcionários que não recebem salários há meses. Encontro conhecidos, converso sobre isso, sobre a vida e a pobreza em Moçambique – até descubro que lá, a energia elétrica é pré-paga para evitar calotes.

Sem esperanças de aula, me recolho a um banco desconfortável, mas num lugar silencioso e me concentro no texto que deveria ter lido para a aula perdida. Nem tudo estava perdido!

Leio sobre o sujeito metropolitano, que precisa de relógios e horários marcados para que a vida caótica da cidade grande não vire também um caos. Eu, que gosto tanto de hora marcada e sou sempre pontual, estou tomando um tapa na cara da cidade e da natureza. Tudo o que me resta é esperar a chuva passar, me molhar ou desistir da aula e assumir que saí de casa à toa. Levo 40 minutos só esperando o ônibus passar e depois, mais de uma hora para chegar em casa. A paciência já estava acabando, o mal-humor dava os primeiros sinais. São Paulo cansa!

Mesmo diante de tudo isso, não acho que saí de casa à toa. Saí procurando ver a cidade que da minha janela mal ouço, mal vivo. Encontrei seu caos, seu (e meu) estresse. É seu excesso. Chego em casa numa felicidade simples e cansada, que só quem mora em São Paulo e vive São Paulo sente.

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O peso do desamor

Posted by thaisherrero em 17/03/2011

Contrariando os que querem um texto com o brilho de olhos apaixonados, o meu tema é o desamor.

Quanto pesa um desamor? Ele é muito mais pesado do que o amor porque carrega em si toda a história que o construiu. Como ossos e músculos que constituem um corpo pesado e forte.

Um desamor é formado pelo primeiro encontro, pela expectativa do primeiro beijo, pelo frio na barriga do telefonema no dia seguinte e por um olhar sobre novos olhos. Nele, mora a música que tocou na rádio naquele dia especial e o cheiro do perfume que insistiu em ficar na memória.

Só que na composição de um desamor estão mágoas, dúvidas, o telefonema perdido, o silêncio quando se queria uma palavra de conforto e o barulho ensurdecedor quando se tentava evitar a verdade que doeria.

Um desamor é feito de covardias, de cartas de amor não entregues, de palavras que não saíram e fotos num verão que nunca aconteceu. Ele tem a expectativa do que não se concretizou. Como um balão de festa que foi inflado, mas com o qual ninguém brincou e ficou esquecido no canto do salão. Não estourou. Apenas murchou devagar. Seu fim é ser pequeno, mas compacto. Esse balão guarda em si a fantasia e a alegria de uma festa inteira.

Um desamor pesa mais do que um amor porque carrega em seus ombros a esperança do sonho e a desilusão da perda. Um desamor tem o peso de existir por si só. Esse é seu fardo. Um desamor é tão pesado assim porque só pode existir onde antes houve amor.

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